Com seu sorriso meio bêbado

Você ri do Karl e sua teoria,

Me pergunta pela tinta de dedo

E aumenta o volume de “Olha Maria”…

 

E em nosso esplendor, morrendo de medo

Me abraçaria, olho no olho e sorriria!

Não teria motivo pra sair cedo

Não saindo faria minha alegria.

 

Estou aqui com o isqueiro na mão

Esperando me pedir um cigarro.

Esperando, pr’aos seus pés jogar-me ao chão.

 

Estou só, eu e o maço de Marlboro…

Espero que você venha, senão

Continuarei a acelerar meu carro…

% acompanha uma voz bêbada e lacrimante e um dedilhado num violão igualmente desafinado

C

Quantas coisas acontecem entre uma nota e outra?

Dm

Quantas imagens se vê por acorde?

Em

Quantas lágrimas são contidas a cada compasso?

F

Quanta dor se sente em cada riff?

G

Quantos projetos são descartados por frase?

C                   Am

Quanto de mim repito no refrão?

Quanto é intensa a expressão pelo pedal?

Em

Quanto da verdade sai pelo amplificador?

G

Quanto disso tudo é absorvido pelo captador?

Quanto de nós está nas cordas, vibrando?…

A sensação física dessas coisas psicológicas todas que eu sinto…

O amargo do bálsamo impregnando toda a minha boca, aumentando ainda mais- nunca pensei que fosse possível- a minha constante vontade de vomitar.

O corpo inteiro queimando devido a externalidades, principalmente meus lábios rachados.

O estômago pedindo arrego.

O coração reclamando- dessa vez devido à quantidade absurda de álcool que vem de brinde na cachaça.

A cabeça continua girando do mesmo jeito, mas meus pés pararam de doer!

_Sabe quando você sonha que tá caindo? O seu corpo gela, fica pesado e você sente muito medo e fica confuso por alguns instantes…

_Sei.

_Então, imagina que ao mesmo tempo você sente mosquitas do dengue voando em seu estômago vazio e sugando seu sangue por lá.

_Mas o que isso tem haver com-

_Escuta, escuta! Sabe quando você sonha que está caindo?

_Já disse que-

_Agora pensa que é só o seu coração.

_Hã!…

_Junto com a parada do estômago.

_Com os mosquitos?

_Mosquitas…

_Meio desagradável…

_E é, principalmente porque você não acorda.

_Não?

_Quando é só o coração caindo não.

_Terrível… Sai dessa mano, eu sei que tem jeito!

__Jeito tem… Tem também mais uma coisa.

_Mais?

_É… Sabe quando você sonha que tá cain-

_Aff…

_Eu não falei, mas você disse que sabe…

_Sei sei fala logo!

_Calma, cada coisa tem seu lugar e seu tempo…

_Você não disse que ia assassinar o Tempo?

_Eu vou, assim que meu coração parar de cair!

_Mas você não disse que não acorda?

_Acorda com um beijo da princesa encantada…

_Mas não é por causa dela que você está assim?

_É, mas não é culpa dela…

_Eu sei, mas porque você não larga a mão disso e toca sua vida? Arruma outra coisa pra fazer, se distrai, sai com outras, sei lá… Ela não vai voltar aqui!

_Vai sim, ela anda beijando um monte de sapos por aí, procurando…

_Mas por que ela voltaria aqui?

_Porque ela não vai encontrar o que procura em nenhum outro lugar. E outra coisa, também não é culpa minha se quando ela esteve aqui eu estava submerso…

_Ainda acho que você deveria arranjar alguma coisa pra fazer.

_Mas eu tô fazendo! Tô aprendendo a me equilibrar nessas plantinhas que bóiam, eu sei que ainda vou ficar com meio corpo debaixo d’água mas uma parte vai ficar pra fora e aí ela e eu vamos poder ter nosso felizes-

_Você é louco sabia? Insano mesmo…

_Não, eu só tenho dificuldade em me manter fora d’água.

_Tá bom (é melhor não contrariar…) era isso que tinha a mais?

_Não, não, sabe quando você sonha-

_Que tá caindo! EU SEI!

_Então, a terra, a água, a gravidade, tudo some, e não tem jeito de se sentir mais leve…

_…! Mas e a angústia, e a melancolia e-

_São menores… São menos importantes… O coração cai porque está cheio, muito cheio dessa coisa que não dá pra coaxar em palavras. E quando o coração se enche disso, quando não dá mais pra por mais nada, ele transcende, ele se liberta, pra poder continuar crescendo… E aí não tem mais volta…

_Isso é-

_NÃO COMPLETA! Não estrague a sensação…

_Ok, mas e as mosquitas?

_A gente digere… Demora, mas digere.

/Grilos/

_Vem comigo /lágrimas escorrendo, voz embargada/ conheço um poço aqui perto que eu acho que você vai gostar.

_Deixa só eu sair da água primeiro…

Vejo beleza em toda parte fora de mim.

Vejo beleza em uma parte de mim;

Que por estar fora  do meu corpo…

Não sou eu?

 

Vejo ligações entre tudo fora de mim em toda parte fora de mim.

Vejo ligações entre tudo por uma parte de mim;

Que mesmo estando fora do corpo…

Não me conecta?

 

Vejo paradoxos em toda parte de mim.

Vejo paradoxos em uma parte fora de mim;

Que estando meu corpo fora…

Não a torna incompleta?

Odisseu leu tais palavras gravadas a fogo em uma rocha malcheirosa e de tons sombrios, junto a uma pilha de cadáveres animados e em pleno processo de decomposição. Obviamente não lhes puseram os dracmas nos olhos…

Os olhos de seus homens- bravos guerreiros que sobreviveram à carnificina de tróia, homens que já haviam visto o lado mais perverso da humanidade e de suas organizações, seres humanos que presenciaram como nunca ninguém ousara imaginar a destruição que, o que dizem, Amor causa- oscilavam vacilantes nas órbitas, suas mãos suavam deixando a espada frouxa e trêmula, seus pés girando sem sair do lugar, e suas bocas abertas, babando e com os lábios brancos como as nuvens que já não viam há meses, sem emitir um som sequer…

Dentre todos, vivos e mortos, apenas o capitão e barqueiro pareciam não sentir a claustrofobia que aquela enorme galeria à beira do rio causava. O barqueiro obviamente não esperava nada… (I)

***

Antes, quando Esparta reunia os exércitos para tomar a ilha, Odisseu tomou do arado e pôs-se a semear a areia rochosa das praias de Ítaca.

Tanto conhecimento, tanta sede por saber acabaria enlouquecendo-o, mas pela forma que falava já era de se esperar que tal comportamento fosse inclusive um indício de sua loucura latente; ele sempre deu um jeito de sair de confrontos usando artimanhas do intelecto… Ele nunca perdeu, mas que homem agüenta tantas provocações sem perder a razão? Apenas um louco consumado…- proclamou-se pelas ágoras de toda a Grécia.

***

Dez anos depois numa taverna improvisada em um dos barcos, com vista privilegiada para o muro do quintal, Aquiles- ensopado do vinho que cuspiu sobre as vestes devido à última piada contada sobre as mulheres do templo, justamente quando o líquido passava por sua glote- exclamou de pé sobre a mesa improvisada(um tronco) que os últimos dez anos foram os mais divertidos de sua vida e que os troianos mereciam um presente inigualável por tal façanha.

_Excelente idéia meu caro semideus! E é justamente isso que vamos fazer!

No silêncio palpável e denso que surgiu no barco-taverna era possível ouvir o pensamento uníssono de todos e de tudo, até da taça metálica de Odisseu que rachou derramando seu carmenère sobre o tronco- provavelmente suicidando-se:

“Fudeu, agora ele surtou de vez…”.

***

Ao fim da peleja(Helena obviamente descumpriu sua promessa de até que a morte nos separe- típico… ¬¬) Odisseu se viu livre de sua dívida para com Esparta, mas ganhou outra em troca, dessa vez com o cara do garfão. O que não foi muito bom já que ele gostava de pescar em alto mar com seu barquinho de guerra. Resumindo: depois de um tempão na praia ele só pensava em ir pra casa ver um jogo dos Ravens e tomar uma cerva. Tinha a Penélope também, claro, alguém tinha fazer um rango pra galera. Mas o cara de atum disse que não e o prendeu numa ilha com uma gostosa até ele perder a noção do tempo. Ah! , a gostosa transformou tripulação em vara. Depois de obrigar todos a virar gente de novo(eles lutaram bravamente correndo enlameados pelo chiqueiro, o que foi um bom treino para os jogos de pais e filhos da associação da paróquia que ficava perto do sítio da família em Cordisburgo), ele disse pra gostosa que ia ali comprar cigarros e ela o mandou para o inferno. O que nos leva ao topo do post.

***

(I) muito menos Odisseu. Ao lembrar-se de seus homens resistindo ao antídoto, e vendo-os naquele estado de nervos percebeu que estava sozinho. O que considerou uma verdadeira glória constatando que a esperança também o abandonara havia anos. Ele agora era movido unicamente por sua vontade consciente, uma vez que nenhum dos males de Pandora o acompanhava.

Ao contemplar a inscrição na rocha viu que ainda havia um brilho sinistro e sedutor emanando das letras. Aproximou-se com cuidado, safanando um ou dois zumbis no percurso, ao colocar a mão esquerda bem perto do “toda” sentiu o calor aumentando gradativamente sem queimar, o que já deveria ter acontecido a uns 30 centímetros dada a cor escarlate de seu escudo. Deu isso em conta quando ouviu a voz assustadoramente agradável e melodiosa do barqueiro:

_Você é um dos que faz com que essa marca continue queimando e se aprofundando na rocha… Odisseu tocou a marca… ela foi feita com o fogo dos deuses pelo próprio Perseu quando veio me visitar. Se qualquer um desses espíritos de porco tentar tocá-la irá se queimar. Pelo menos enquanto seus espíritos forem de porco, se lambuzando de lama antes de encarar o espelho, e fugindo, sempre fugindo da própria sombra, que para eles, como crêem em todas as ilusões, é um predador implacável…

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